HISTÓRIAS DE FORÇA: 3 VIDAS E 1 LUTA

O Outubro Rosa é um movimento importante para o compartilhamento de informações e a conscientização sobre a importância da detecção precoce do Câncer de Mama e de Útero também.

Para entendermos um pouco do impacto da doença, convidamos três mulheres para compartilharem o que viveram. Conheçam as Histórias de Força das vencedoras e lutadoras Luciene, Cláudia e Paula!

 

Nome: Luciene Maria de Araújo

Idade: 48 anos

Profissão: Professora

Experiência dolorosa: Câncer de Mama

Descobri quando eu estava com 38 anos, quando ainda cursava faculdade de letras. Cheguei um dia do trabalho e senti muita dor no meu braço esquerdo. Achei estranho, porque sou destra, escrevo com a direita e faço tudo com a direita. Fui ver o poderia está causando essa dor, levantei o braço e vi um caroço na axila. Fiquei preocupada na hora, pois eu tive irmãos que já tiveram câncer e a primeira coisa que eu já pensei: “estou com câncer”. Conversei com a minha vizinha que eu suspeitava que aquele caroço pudesse ser alguma coisa e ela me levou para o hospital, direto para o pronto socorro. Fui consultada pelo médico e ele me orientou que eu procurasse um mastologista.

Fiz todos os exames para descobrir se o nódulo era alguma coisa ruim e durante a ecografia o médico percebeu outros nódulos. Antes do resultado da biopsia, ele já constatou que meu caso era grave, pois já estava na axila e teria que tirar toda a mama esquerda. Segundo ele, eu não poderia esperar, tinha que me mover e começar o tratamento o mais rápido possível. Fiquei desesperada, pois eu não tinha noção do estágio que estava a doença. Liguei para minha filha e contei o que estava acontecendo.

Levei os resultados dos exames para o médico e fui fazer a pulsão. Na biopsia foi encontrado o carcinoma infiltrante de alto grau nuclear. Chorei demais com a notícia porque eu fiquei com muito medo por conta dos meus filhos. Na época, o meu filho tinha 10 anos e a minha filha tinha 17 anos e tinha medo de morrer e deixar eles sozinhos. Mas depois que eu descobri a doença, eu comecei a entender que tinha que me preparar para uma guerra, me armar para batalhar bastante. Busquei forças em Deus, fortaleci a minha fé para me encarar para o que pudesse vir.

Logo depois que fiz a pulsão, a princípio eu não poderia fazer a cirurgia de retirada da mama esquerda, pois o meu estágio era bem avançado e já estava enraizado. Eu era a única paciente que já sabia que no dia da operação ia ficar careca e sem a mama esquerda, por conta do meu quadro. Fiz a mastectomia, porém não fiz a reconstrução imediata. Fiquei sem a mama esquerda durante três anos.

Os médicos me deram apenas seis meses de vida, pois tinha 40% de chance de sobreviver. Por conta disso, eles me apresentaram uma medicação nova, porém não era padronizada ainda pelo SUS. Ela poderia me ajudar a aumentar para 80% a chance de sobreviver. Porém, tive que entrar na justiça e fiquei três meses e meio nessa luta com a Secretaria de Saúde para conseguir a autorização para tomar o remédio. Os meses que eu tinha foram passando e o médico viu que pelo tempo não ia adiantar mais tomar a medicação, pois eu já tinha terminado as quimioterapias. A orientação era de tomar o remédio durante esse processo, porém talvez não fizesse o efeito desejado. Quando ele orientou a não tomar mais, recebi a autorização para tomar a medicação. Bati os pés e falei para o médico que iria tomar porque era uma mais uma chance que podia ter. Fiquei me sentindo um verme, sem escolhas, na mão das pessoas. Conversei novamente com o médico e ele permitiu tomar o remédio, apenas depois do eletrocardiograma para conferir o meu coração. Tomei-o durante um ano.

Quando eu dei entrada para fazer a reconstrução da mama esquerda, tive uma hemorragia por conta dois cistos em cada ovário sendo um era hemorrágico e o outro era um septo e por isso retirei o útero e os ovários. Só depois de seis meses que fiz a primeira reconstrução.

Tive muito apoio da minha família. No início não foi fácil, como é normal. A notícia veio e com ela também vieram às dúvidas, angustias e medos. Meus filhos seguraram a barra comigo. Conversei demais com eles, tentei passar confiança mesmo com o pouco tempo que os médicos me deram. Estava me preparando para tudo, sempre com muita força e garra para enfrentar o que for necessário. As minhas irmãs ficaram desesperadas, pois somos dez irmãos, sendo que cinco tiveram câncer. As minhas irmãs também tiveram o câncer de mama, mas descobriram cedo e o tratamento foi mais tranquilo. Em 2014, fiz a retirada da outra mama, a direita, como prevenção.

O momento mais difícil foi quando eu soube dos resultados dos exames e a confirmação do câncer, pois eu não tinha plano de saúde e sabemos o quanto é precária a saúde pública no Brasil. Meu medo era de não conseguir morrer sem lutar, pela falta de medicação. Quando soube da noticia, tive medo de não conseguir, de deixar meus filhos e de ver a minha vida sendo interrompida. Mas depois que iniciei os primeiros procedimentos e cirurgias e comecei de fato o tratamento, fui me fortalecendo. Eu encarei, arregacei as mangas e fui à luta.

Passaram nove anos e foram no total oito quimioterapias, 28 radioterapias e nove cirurgias e estou viva! A principal coisa que você deve fazer quando passar pela luta do câncer é trabalhar a sua cabeça, pois você vai passar por muitos momentos ruins e negativos. Trabalhei a minha cabeça assim: um dia todos vão morrer e isso é fato. Nós temos um bilhete de trem e chega um momento que você tem que descer e partir. Ninguém sabe do dia de amanhã, pode acontecer muita coisa, pois pra morrer, basta está vivo. A gente só morre quando tem que morrer, quando chega o dia. Então, fiz a minha parte de lutar, dei o melhor de mim. Mas é claro que tem momentos ruins. Durante a quimio você fica muito mal, com muita dor e que você chega a pensar que se morresse naquele momento seria um alívio por conta das dores. Porém, quando aquele momento passa você revigora as energias, você quer viver, você quer aproveitar sua vida o máximo que conseguir. Por isso que é importante trabalhar a sua cabeça, ser feliz, sorrir sempre que conseguir. O que eu podia fazer, eu fazia e vivia da melhor forma. Eu dizia pras pessoas que a cada sorriso era uma célula nova. Cheguei até conversar com as minhas células: “vamos lá meninas, vamos reagir!”

Que você lute ao máximo pela vida! Que a sua alegria de viver, sua autoconfiança e seu psicológico estejam preparados, pois 50% é a cabeça e os outros 50% que é o tratamento. Faça todos os procedimentos, tome os remédios, faça as quimios, rádios e as cirurgias, porque depois tudo pode se ajeitar. Você pode emagrecer, reconstruir as mamas e o cabelo cresce de novo. Foca na sua cura, na sua vida e viva intensamente o hoje. Busque alegria nas coisas, mesmo nos momentos difíceis. Me sinto mais bonita, mais feliz, porque a gente passa a ver a vida com outros olhos. Hoje é a minha felicidade que está em primeiro lugar.

Luciene Maria 48 anos, professora e mais uma vencedora!

Nome: Cláudia Aparecida de Moraes

Idade: 54 anos

Profissão: Aposentada

Experiência dolorosa: Câncer de Mama

Eu estava fazendo uns procedimentos de reposição hormonal. Eu tomei por cinco meses os hormônios e os medicamentos recomendados, porém comecei a sentir dores mamárias. Fui ao ginecologista e descobri que tinha um nódulo nas mamas e logo me encaminhou para o mastologista, pois se tratava de um nódulo não muito palpável, ele estava espalhado pela mama esquerda.

Estava com meu esposo a todo o momento. Ele acompanhou todo o processo junto comigo. Ele ficou muito preocupado quando eu fui fazer a pulsão, pois o médico falou que tinham vários nódulos internos distribuídos e que poderiam ser malignos. Então, depois de 15 dias esperando, levamos o resultado para o médico e recebemos a notícia do câncer. Em choque com a notícia, entrei em desespero e chorei por três semanas. Depois que começou o tratamento, conheci outras mulheres com experiências semelhantes e isso me deu força e coragem para fazer o tratamento.

Pra contar a notícia para as minhas irmãs, foi tranquilo. O difícil foi contar para os meus pais, que são idosos. Minha irmã acabou contando e eu tive um apoio muito grande de todos. Meu esposo, meus filhos me ampararam o tempo todo.

Foram muitos momentos difíceis, além daquele que recebi a notícia. Mas os que mais me marcaram, foram às primeiras sessões da quimioterapia. Eu pensava que iria morrer, tanto que pensei em desistir do tratamento na terceira sessão, pois achava que não ia aguentar. Uma médica amiga me ajudou e ligava todos os dias para saber como eu estava. O meu médico viajou e o residente que ficou para me auxiliar e fazer os procedimentos da quimio me ajudou muito. Ele fez um preparo antes da quimioterapia, no qual eu tomava uns remédios para me dar força durante o procedimento. Outro momento difícil do tratamento foi pós-cirúrgico da reconstrução da mama esquerda, pois eu fiz mastectomia radical. Passei o dia todo no centro cirúrgico, tive muita dor durante a noite. Fiquei quatro dias no hospital, com dor no corpo todo.

Eu tive muita ajuda da minha família, das minhas amigas e de colegas também. Eu lutei com fé, com muitas orações. Tudo o que eu queria era ficar curada e não me preocupava com os cabelos caindo ou em ficar dois anos usando uma prótese, pois só fiz a reconstrução depois de três anos.  Participei de um grupo chamado “Amigas do Peito” que também me deu forças para continuar o tratamento. Eu entrei para o grupo de Brasília e também o nacional e todo ano tem um encontro que reúne mulheres que já passaram pela luta do câncer de mama.

Hoje eu me preocupo mais, não só com a saúde porque sempre me preocupei, mas procuro me divertir mais e curtir mais a vida. Eu vejo a vida de outra maneira, antes dava muita atenção a coisas pequenas, hoje eu vejo a vida de um jeito mais leve.

Gostaria de dizer para as mulheres que estão passando pela luta do câncer o mesmo que eu escutei: que você tenha muita fé em Deus, não hesite em procurar ajuda dos amigos e familiares, tome cuidado para não ficar depressiva, pois essa doença é considerada nossa inimiga número um. Não se deixe abalar por conta da falta dos cabelos e não deixe de sair também. Procure dar bons risos e evite coisas tristes, ruins e negativas.Não deixe a tristeza tomar conta de você, levante o astral, só depende de você. Passe um batom, um lápis no olho, coloque um lenço e vai passear. A vida é maior que tudo isso.

Claúdia Aparecida de Moraes, 54 anos, aposentada e  mais uma vencedora!

 Nome: Ana Paula Quirino

Idade: 39

Profissão: fisioterapeuta e fotógrafa

Experiência dolorosa: câncer de colo de útero

Descobri em fevereiro de 2012, enquanto eu tentava engravidar pela segunda vez, através de alguns exames preventivos e no exame Papanicolau e foi detectado o câncer de colo de útero. Recebi uma ligação da minha médica, pedindo que eu fosse até seu consultório, enquanto estava na clínica de oncologia, acompanhando minha mãe, no qual ela fazia quimioterapia para tratar um câncer de pâncreas. Em seu consultório, ela falou meu diagnóstico e me deu opções de tratamento. Eu escolhi o mais radical, que seria a retirada total do órgão, uma vez que não queria correr riscos de metástases.

Meu núcleo familiar eram minha mãe que também estava com câncer, meu marido, filho de 5 anos, eu e Buck, meu cachorro e amigo inseparável. Nós já estávamos bem acostumados a conviver com o câncer em nosso dia a dia, pois minha mãe morava conosco e estava tratando a doença desde 2010. Então, encaramos com naturalidade. O apoio e os comentários que mais me deram forças foram da minha mãe, que disse que se ela estava vencendo a luta contra o câncer, eu também venceria. Do Gabriel, meu filho, quando expliquei que não poderia mais dar-lhe  “irmãos da barriga” – pedido feito até nas cartinhas ao Papai Noel. Ele, na sabedoria dos seus cinco anos, me disse: “depois a gente anota um irmão”, referindo-se à adoção. E do Alexandre, meu marido que me deu muita força, principalmente por  não podermos mais ter filhos.

Os momentos mais difíceis do tratamento foram as três cirurgias que tive que me submeter e a recuperação de todas as cirurgias na UTI. Descobri da pior forma, depois da anestesia geral, demorou mais do que o normal para voltar a respirar. Fiquei no respirador, em ventilação mecânica, acordada sem saber se eu tinha que respirar ou deixava a máquina respirar por mim, entubada. Foi a pior sensação, a pior parte!

Nunca me passou pela cabeça não conseguir, não me curar ou não sobreviver. Sempre fui muito otimista e brincalhona e acho que esse foi grande diferencial durante meu tratamento. Fé, amor, bom humor e minha médica maravilhosa, Dra. Sonia Ferri, que me presenteou com vida, pela segunda vez. Ela fez meu único parto e cinco anos depois, retirou meu útero doente, permitindo que eu continuasse vivendo.

Hoje encaro a vida com mais leveza e sou agradecida por todos os momentos. Lembro-me que no leito da UTI, depois da última cirurgia, prometi a mim mesma que não passaria por tudo isso em vão. Falaria para todas as mulheres, que eu tivesse oportunidade, sobre a importância de fazer os exames preventivos, uma vez por ano. E foi dai que tive a ideia de fazer um ensaio fotográfico com mulheres que tiveram algum contato com o câncer. Depois desse ensaio, eu e Ellen Morbeck, amiga e fisioterapeuta em oncologia, criamos o Evento Retratos de uma Luta – um dia para troca de experiências entre pessoas que estão passando pela mesma luta,  com momentos de alegria, atividade física dirigida, cuidados com beleza e autoestima, ensaios fotográficos, oficinas de maquiagem, doações de cabelos para confecção de perucas, lenços e alimentos para instituições de caridade que cuidam de pessoas com câncer. É um evento beneficente, contamos com apoio total de voluntários e apoiadores para conseguirmos custear o evento. Já tivemos duas edições do evento, mas estamos com receio de que não consigamos continuar com o projeto, por falta de apoio financeiro.

E você que está lendo e está passando por algum momento difícil em relação ao câncer, que você nunca perca a fé e a vontade de viver. Tenha bom humor e aceite cada experiência, boas ou ruins, como aprendizado. Cuide do corpo e da alma, esteja próximo das pessoas que ama e viva cada dia de uma vez! Depois, você estará aqui, contando sua história, assim como eu!

Paula Quirino, 39 anos, fisioterapeuta, fotógrafa e mais uma vencedora!

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